Onde todos os olhares se cruzam...
Domingo, Março 13, 2005
Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.
Lya Luft
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Sexta-feira, Março 11, 2005
Se sentir saudade de mim, procure-me em coisas que você não sabe que fazem parte da minha vida...
Procure-me em latinhas de cocas ligths, florzinhas azuis de grama, chá de canela com hortelã, suco de manga, pamonha, pastel de palmito da feira da banca do Seu Zé, em doce de abóbora com coco, na fruta cheirosa chamada atemóia, preocupação com contas, choro escondido, dança solitária de avental e pés no chão...
Procure-me na tinta de cabelo castanho claro, em constantes tentativas de emagrecimentos, em muitas músicas sertanejas e até bregas, em licor de tamarindo... ou de amarula.
Você pode me encontrar também na preguiça de lavar louça, de fazer unha, na minha falta de vaidade...
Vai me achar num melindre chato... Numa camuflada timidez, num descabido pudor...
Se sentir saudade, procure-me em coisas que você não conhece de mim... pois só assim você estará sentindo-me e encontrando-me na minha verdade, sem faz-de-conta. E, ao encontrar-me, terá tido certeza de que encontrou quem você realmente queria....
E, se depois disso ainda quiser ficar, saberei que você sentiu realmente saudade ... e foi de mim!
**Edna Feitosa**
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Sábado, Março 05, 2005
OS QUE NUNCA PARTEM
Eu me lembro que quando era muito jovem, ouvia os adultos comentarem: fulano partiu.
Esta era a forma que eles achavam menos sofridas de falar que alguém havia morrido,
principalmente quando estavam perto de crianças. Era um jeito delicado que eles tinham
de citar a morte sem que ela parecesse tão chocante.
Cresci e comecei também a falar assim - fulano partiu - acabei achando menos dolorido
menos violento se referir à morte dessa maneira.
Quando se diz que alguém morreu, dá a impressão que se acabou, desapareceu e imaginar
que alguém que queremos bem acabou ou desapareceu pra sempre é terrível.
Dói mil vezes mais do que precisar enfrentar a sua própria ausência.
Partiu já é diferente, dá uma sensação de que em algum ponto da vida nos
reencontraremos com essa pessoa querida novamente. Fica mais fácil imaginar que
ela viajou, uma viagem sem data pra voltar, mas com retorno garantido.
Enfim, descobri recentemente, que existe uma outra categoria dentro desse universo.
São aqueles que nunca morrem e, portanto, jamais partem. São aqueles que embora
desapareçam de nossas vistas, eternamente se fazem presentes em nossa memória
e nosso coração.
Os que nunca partem são as pessoas que nortearam nossos dias colocaram um
significado importante neles e deixaram uma marca tão profunda em nós que não importa
onde estejam, porque ao nosso lado, de alguma forma, sempre estarão.
Morrer partir são coisas simples, coisas do dia-a-dia. Acontece toda hora, em todo lugar,
com todas as pessoas.
Os que nunca partem e os que nunca passam pela dor de assistir alguém querido partir
são os felizardos dessa vida.
Dores momentâneas, saudades e ausências à parte, felizes daqueles que amaram
alguém nessa vida a ponto de jamais deixá-los partir de seus corações.
Se quando eu me for, por desígnio de Deus, uma única pessoa não me deixar partir
me guardando dentro do seu peito, eu direi que valeu a pena ter passado por aqui e que
minha estada nessa vida não foi em vão.
Mas enquanto ainda estou por aqui, só tenho a dizer que dentro de mim moram pessoas
que nunca deixei que partissem verdadeiramente, assim, como não deixarei que partam,
jamais, algumas que ainda estão por aqui.
Os que nunca partem são aqueles que descobriram o segredo de brilhar na terra,
mesmo antes de chegarem ao céu e se tornarem estrela.
AUTORIA - SILVANA DUBOC
Meiga
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