Olhares Perdidos...



















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  • Domingo, Maio 29, 2005





    Te fostes daqui sem permissão, quem liberou-te do meu coração?
    Não foi ele, também não eu, quem sabe ela, Poliana na janela?
    Dante? Expurgando-te do inferno? Ou a Lira flamejante de Nero?
    Um Otelo enraivecido, clamando traição?
    Teria sido Isolda sem Tristão? Por certo não!
    Que tolice te fadaria à solidão.
    Então quem fez o chamado? A verve de Haia?
    Rui, te prometendo o vôo da Águia?
    Ou foi outro Barbosa, o Lessa,
    oferecendo o Sul em promessa!

    Te fostes daqui sem permissão,
    que seja por um bom motivo, e não ilusão.
    Não te enganes com a opulência do Barroco,
    é apenas tendência, pura aparência,
    a seguires assim, te findas oco, solitário e louco.
    Confia na calma do Renascimento, não julgues monotonia,
    é transformação, destino, sentimento.
    O resto, de resto, é só fantasia.


    nessa Gentile




    Domingo, Maio 22, 2005







    O vento é um doce pássaro
    de asas abertas, de bicos pontudos,
    Rondando-me e atraindo-me,
    tentando me afastar de ti.

    Não, não quero ir!
    Quero abraçar a vida e o amor,
    passar meus dias em teus braços,
    caminhando lado a lado.

    Guarda-me em teu peito,
    silencia meu compasso,
    apenas por uns instantes,
    até que ele não mais sopre e me esqueça.

    Faze de teu corpo meu albergue,
    enquanto a tempestade busca outros caminhos,
    outros amantes,
    outros rochedos.

    Ouve o som da revoada!
    É o vento me querendo,
    me caçando,
    tentando me levar pra longe.

    Não, amado, não deixa!
    Cobre-me com teu corpo,
    abraça-me com teu amor,
    aquece-me com teu calor,
    que ele passará e pousará
    noutro corpo sem alento.

    Vai, esquece o vento!
    Deixa que parta,
    que me procure louco,
    vendavais e tormentas,
    por entre vales, montanhas, oceanos,
    que eu me enterro em teu sorriso,
    e durmo tranqüila, protegida,
    por um instante.

    por Lílian Maial

    Meiga




    Terça-feira, Maio 17, 2005





    Onde estarão tuas luas,
    eufóricas,
    impregnadas de marés andarilhas?

    Onde os teus murmúrios contemplativos,
    tuas veias aquecidas pelos vapores
    das estrelas elétricas e
    despudoradas?

    Em que reinos ficam agora
    os palácios da tua morada branca,
    as janelas abertas
    dos teus entusiasmos meteóricos,
    sempre insuficientes ao insaciável
    do teu desejo?

    Onde as festas e
    o contentamento
    da tua criança rebelde,
    inconstante,
    habitante do planeta ouro,
    viajante dos mergulhos rasantes?

    Para onde olham teus olhos vitrines
    regados de céu,
    olhos de noites que se recusam
    a escurecer?

    (teus olhos lagos
    de manhãs úmidas,
    teus olhos firmes
    de fogo ardente,
    teus olhos sorrisos
    de leitos espumantes)

    Em que porto o barco ancora
    os sopros dos teus anseios
    violetas?
    quem assiste agora tua teimosia
    por primaveras?

    Em que oratórios estão pousadas
    as preces das tuas mãos gentis?
    em que barros elas buscam
    as essências dos invisíveis,
    as esculturas dos inícios,
    que desenterramos dos porões?

    (tuas mãos almas
    tuas mãos harpas
    tuas mãos nuas
    viagens minhas)


    Por uma fração de segundos
    caiu pesadamente em mim
    a ignorância das impressões,
    espécie de alucinação,
    pesadelos talvez.

    vi raizes expostas, arrancadas,
    tempo prematuro e acelerado
    evaporando levianamente
    a harmonia da nossa fragrância.

    Tu estás aqui ainda
    eu sei,
    livre e intimamente
    com o todo teu
    colado no todo
    meu

    Tu permaneces
    eu sei,
    banhando os pés
    nos infinitos rios
    dos meus movimentos
    mariposas.
    varrendo essas ridículas
    poeiras que corrompem
    a paisagem do original

    Tu estás comigo
    eu sei,
    ignorando todas as leis impingidas
    pelas histórias foscas,
    inúteis cacos de vidro
    espetados por dentro
    dos nossos gozos.

    Tu ficas
    eu sei.

    peço perdão
    pelo tempo desse poema,
    foi apenas por um lapso,
    por um breve instante,
    que ele se levantou.

    foi apenas pela confusão da mente,
    que por vezes,
    sem medir consequências,
    me ataca em dentes.

    foi a saudade que
    repentinamente me colheu.

    Ah essa indiscreta e infiel saudade
    a me distrair!

    é,
    foi ela,
    foi a saudade,
    que trouxe a nítida impressão
    que eu havia acordado.

    kk

    Meiga



    Quarta-feira, Maio 11, 2005




    Um anjo vem todas as noites:
    senta-se ao pé de mim, e passa
    sobre meu coração a asa mansa,
    como se fosse meu melhor amigo.
    Esse fantasma que chega e me abraça
    (asas cobrindo a ferida do flanco)
    é todo o amor que resta
    entre ti e mim, e está comigo.

    Lya Luft

    Meiga



    Sexta-feira, Maio 06, 2005





    Mães Más


    Um dia quando meus filhos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, eu hei de dizer-lhes:

    Eu os amei o suficiente para ter perguntado aonde vão, com quem vão e a que horas regressarão.

    Eu os amei o suficiente para não ter ficado em silêncio e fazer com que vocês soubessem que aquele novo amigo não era boa companhia.

    Eu os amei o suficiente para os fazer pagar as balas que tiraram do supermercado ou revistas do jornaleiro, e os fazer dizer ao dono: "Nós pegamos isto ontem e queríamos pagar".

    Eu os amei o suficiente para ter ficado em pé junto de vocês, duas horas, enquanto limpavam o seu quarto, tarefa que eu teria feito em 15 minutos.

    Eu os amei o suficiente para os deixar ver além do amor que eu sentia por vocês, o desapontamento e também as lágrimas nos meus olhos.

    Eu os amei o suficiente para os deixar assumir a responsabilidade das suas ações, mesmo quando as penalidades eram tão duras que me partiam o coração.

    Mais do que tudo, eu os amei o suficiente para dizer-lhes não, quando eu sabia que vocês poderiam me odiar por isso (e em momentos até odiaram).

    Essas eram as mais difíceis batalhas de todas. Estou contente, venci... Porque no final vocês venceram também!
    E em qualquer dia, quando meus netos forem crescidos o suficiente para entender a lógica que motiva os pais e as mães, quando eles lhes perguntarem se sua mãe era má, meus filhos vão lhes dizer:
    "Sim, nossa mãe era má. Era a mãe mais má do mundo... "

    As outras crianças comiam doces no café e nós tínhamos que comer cereais, ovos e torradas. As outras crianças bebiam refrigerante e comiam batatas fritas e sorvete no almoço e nós tínhamos que comer arroz, feijão, carne, legumes e frutas. E ela nos obrigava a jantar a mesa, bem diferente das outras mães que deixavam seus filhos comerem vendo televisão.
    Ela insistia em saber onde estávamos a toda hora (tocava nosso celular de madrugada e "fuçava" nos nossos e-mails). Era quase uma prisão. Mamãe tinha que saber quem eram nossos amigos e o que nós fazíamos com eles. Insistia que lhe disséssemos com quem íamos sair, mesmo que demorássemos apenas uma hora ou menos.

    Nós tínhamos vergonha de admitir, mas ela "violava as leis do trabalho infantil". Nós tínhamos que tirar a louça da mesa, arrumar nossas bagunças, esvaziar o lixo e fazer todo esse tipo de trabalho que achávamos cruéis. Eu acho que ela nem dormia à noite, pensando em coisas para nos mandar fazer.

    Ela insistia sempre conosco para que lhe disséssemos sempre a verdade e apenas a verdade. E quando éramos adolescentes, ela conseguia até ler os nossos pensamentos. A nossa vida era mesmo chata.

    Ela não deixava os nossos amigos tocarem a buzina para que saíssemos, tinham que subir, bater à porta, para ela os conhecer. Enquanto todos podiam voltar tarde com 12 anos, tivemos que esperar pelos 16 para chegar um pouco mais tarde, e aquela chata levantava para saber se a festa foi boa só para ver como estávamos ao voltar.

    Por causa de nossa mãe, nós perdemos imensas experiências na adolescência: nenhum de nós esteve envolvido com drogas, em roubo, em atos de vandalismo, em violação de propriedade, nem fomos presos por nenhum crime. FOI TUDO POR CAUSA DELA.
    Agora que já somos adultos, honestos e educados, estamos fazendo o nosso melhor para sermos "PAIS MAUS", como minha mãe foi."

    Eu acho que este é um dos males do mundo de hoje: NÃO HÁ SUFICIENTES MÃES MÁS.

    Dr. Carlos Hecktheuer - médico psiquiatra

    Meiga